Dying Peacefully

Amy

A sensibilidade é algo curioso: ao mesmo tempo em que é o canal que nos permite acessar o mundo, apreendê-lo, senti-lo e captá-lo, ao mesmo tempo é um veneno que pode, em altas doses, fazer com que o mesmo se apresente como um caos doloroso e incompreensível, machucando-nos a cada instante, sem dar um segundinho sequer de colher-de-chá: um rolo compressor recoberto de espinhos incandescentes a passar de forma ininterrupta, promovendo uma verdadeira overdose sensorial. Àqueles atingidos por esta praga, restam poucas opções: se embotar como seres humanos, ignorando propositalmente a existência da mesma, se tornando a cada dia menos e menos humanos, se coisificando, enfim, ou buscar um alívio qualquer, algo que faça a tempestade sossegar um pouco e que dê um pouco de mansidão às ondas. E que possa proporcionar um pouco de tranqüilidade interior (mesmo que forjada), de forma a ordenar um pouco a linguagem e tornar inteligível o discurso – até para si mesmos.

A obra de Arte é exatamente a ordenação do caos interior, das ondas desconexas, sob a forma de um discurso estético, captável pelo público e a crítica. A tradução do Universo externo ao artista, transmutado por suas idiossincrasias específicas, e devolvido, após esta transmutação, ao tal do Universo – cabendo a este aprová-lo esteticamente ou não, apreciá-lo, julgá-lo, ou, simplesmente, ignorá-lo. A angústia, ou seja, o motor que operou essa reação química, esta transformação do Universo Real (comum a todos) em Universo Verdadeiro (aquele em que crê o artista criador, o que ele sente), não pode, nunca, ser totalmente tocada pelo público consumidor. Apenas sua conseqüência (ou seja, a obra final) é oferecida, sendo, pois, esta angústia, apenas possível de ser pressentida – e nunca, em toda a sua dimensão, compreendida ou vivida por parte do público.

A verdadeira angústia é sempre uma incógnita.

Muitas vezes esta angústia se mostra, para o seu possuidor, algo incomensurável, o tal rolo compressor citado no primeiro parágrafo. Nestas ocasiões, o artista experimenta o desespero, a incapacidade de se ordenar, de continuar respirando em um meio que se afigura ininteligível, e que considera este seu mesmo desespero como também ininteligível. E daí surge sua inadequação, sua necessidade de um paliativo qualquer, de um flit paralisante que possa fazer as coisas sossegarem um pouco e adquirirem até um certo sentido. Temperamentos radicais, atitudes extremadas e/ou auto-destrutivas, álcool, drogas et um monte de coeteras muitas vezes são utilizados com este fim. E o artista passa por simples porra-louca, visto que os motivos que gritam em seu interior são apenas seus: são, como disse antes, incógnitas para os que o cercam. A inadequação aumenta à medida que, paradoxalmente, se busca minimizá-la. E cresce a bola de neve. Não quero ser leviano e afirmar que as drogas tenham sido o motivo da morte de Amy Winehouse: conversei com um neurologista e ele me disse que, daqui do lado de fora, sem exames, laudos etc., seria impossível aventar possibilidades. Quero apenas tentar compreender a Amy, tentar pelo menos roçar de leve seu inferno interior, ouvir pelo menos o sussurro de seus gritos de angústia. Dar um pequeno aceno de mão e poder dizer que sim, Amy, eu entendo. Lamento profundamente, chego a ficar puto com o acontecido, mas não com você. Que lamento que tenhamos nos distanciado tanto de nossa sensibilidade que nos seja extremamente difícil esse vislumbre de compreensão; que o mesmo requeira teorizações e uma enorme quebração de cuca, quando o natural seria que, simplesmente, erguêssemos um copo de cerveja em sua homenagem e brindássemos à sua Arte, a sua atitude, a sua extrema liberdade, ousadia e coragem, enfim.

Em vez disso, ficamos por aqui consultando alfarrábios em nossos escritórios e, hipocritamente – de leve, para que ninguém perceba –, morrendo de inveja de todas essas suas qualidades.

Tchau, Amy.


  1. ybren posted this
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