Dying Peacefully

Presente de Aniversário

No dia 12 de maio completo 20 anos de vida. Nada mais normal, como dita nossa tradição, ganhar presentes dos amigos, da família - até daqueles parentes distantes que te mandam um cheque - e, vez e outra, da própria vida. Pois foi justamente o que aconteceu, ou está por acontecer - ainda estou um tanto confuso com essa ideia -: no dia 12 de maio parece que a revista Veja vai publicar uma matéria sobre o suposto início do fim - nossa!, são muito inteligentes - do preconceito. 

Para ser o mais imparcial possível, estou lendo a matéria por inteiro pela primeira vez enquanto escrevo essa resenha: tomei nota de sua existência através de um amigo.

Pois bem, vejamos:

O título do texto é “A Geração Tolerância” - nada obstante, o título que aparece na aba da matéria é: “Especial - Gays: o começo do fim do preconceito”. Já pelo título da matéria, podem-se tecer diversas críticas não só ao vocábulo “tolerância” que foi empregado, como também ao fato de termos nos acostumado a utilizar e a ouvir essa palavra com tanta indiferença. Guardarei a crítica ao segundo fenômeno para outrora. Antes que me atirem pedras a fim de criticar meu tom literal, devo perguntar: como estabelecem-se diálogos se há controvérsias sobre a definição do objeto em discussão? Dessa forma, trago a definição de “tolerância”: condescendência ou indulgência (perdão) para com aquilo que não se quer ou não se pode impedir. Ou seja, o título da matéria é “A geração que é indulgente para com a homossexualidade por “não ter controle sobre esse fenômeno” e não a querer”. Mas como o uso costumeiro dessa palavra não carrega esse valor - ainda que um jornalista deveria ter a noção do poder das palavras e seus significados -, eu vou relevar esse pequeno grotesco erro.

Seguindo, o subtítulo da matéria diz assim: “os adolescentes e jovens brasileiros começam a vencer o arraigado preconceito contra os homossexuais, e nunca foi tão natural ser diferente quanto agora. É uma conquista da juventude que deveria servir de lição para muitos adultos.” Pode ser que para algumas pessoas de cultura limitada ou para os que fizeram uma leitura rápida dessas frases não se perceba nada. Mas eu percebo um ponto um tanto relevante e que muito me intriga: “nunca foi tão natural ser diferente quanto agora.” Primeiramente, acho muito relevante relembrar o slogan usado na época pela mídia em geral para a tentativa de dar fim ao preconceito para com os portadores da síndrome de down: “normal é ser diferente” ou “ser diferente é normal”. Pode até ser coincidência, mas esse tratamento patológico à homossexualidade é muito ultrapassado, tá? Shame on you, jornalista. 

Seguindo, tem uma foto super colorida  com 7 garotos e 2 garotas, que, imagino eu, sejam, ao menos, bissexuais. Abaixo dos nomes - nomes esses que estão sob o título “Turma super colorida” (e eu que gosto de fotos P&B?) -, tem um resumo de como foi se assumir para o mundo para uma das garotas. Ele entitulou tal resumo de “Longe do estereótipo”. Dedicarei outro post para comentar mais a fundo o tom preconceituoso do estereótipo, mas, brevemente, indico: por que o tom de surpresa só existe quando uma mulher que não tem cabelo curto, usa roupas masculinas - tenta, de fato, se masculinizar em geral - declara-se homossexual? Por que, por outro lado, existe, inclusive, um tom de alívio ao se perceber que se trata apenas de uma manifestação de criatividade, de individualidade, mas que a pessoa não é homossexual? Preconceito. Preconceito de como deveria ser e agir um homossexual.

Iniciando, enfim, a reportagem, o autor compara a dificuldade entre relatar notas baixas, falar sobre batida de carro novo com se assumir gay para os pais. E continua: “não é fácil para quem fala, menos ainda para quem ouve. As mães se assustam, mas logo o amor materno supera o choque do novo.”  Notem o poder das palavras: para ele, receber a notícia de que seu filho é gay é pior do que toda a luta interna que ele teve de superar para realizar assumir-se, mesmo sabendo de todos os problemas passíveis de serem enfrentados em sua vida; não temam contudo, o amor de mãe supera todos os obstáculos. Ele segue este parágrafo falando sobre a aceitação na escola e bullying e, por incrível que pareça, emprega o termo orientação sexual. Mas comenta um dado infundado: heterossexuais existem em maior número que homossexuais ou bissexuais - “orientações sexuais diferentes das da maioria”, citando o original -: como se pode dizer que o número de heterossexuais é maior que o de homossexuais ou bissexuais em uma matéria, inclusive no mesmo parágrafo, que fala sobre pessoas não assumidas?

É: o que era doce se acabou. Logo no parágrafo seguinte o autor fala de definição de “preferência sexual”. Ele ainda cita uma fonte, respeitável inclusive, dizendo que 95% dos gays se declaram como tal aos 18 anos. Em seguida, solta a bomba: “O peso de sair do armário já não existe para os jovens gays do Ocidente: tornou-se natural.” Agora eu me pergunto: ele realmente achou que eu não ia perceber? O fato de 95% dos gays aos 18 anos já se declararem gays pouco, se nada, tem a ver com o “sair do armário”. Ainda, o que é “sair do armário”? Gritar aos sete ventos sua sexualidade? Afinal, é muito comum gays assumirem-se entre o seu círculo de amizade, de trabalho, entre outros, e não o fazerem no ambiente familiar, que é, penso eu, o mais relevante. Poxa, Veja, não machuca assim meu coraçãozinho.

No parágrafo seguinte, ele parece querer defender os participantes da entrevista, que, a princípio, não pretendo julgar. Ele diz assim: “Os jovens que aparecem nas páginas desta reportagem (…) são o retrato geração para a qual não faz mais sentido enfurnar-se em boate GLS (sigla para gays, lésbicas e simpatizantes) - muito menos juntar-se a organizações de defesa de uma causa, que, na realidade, não veem mais como sua.” Achei interessante como ele usa o termo “enfurnar-se” que, para os que não sabem, quer dizer: colocar-se em local isolado ou escondido. Pergunto-lhe, caro leitor: onde que boates e, principalmente, festas - porque estabelecimentos que se declaram para pública única e exclusivamente para homossexuais são poucos - GLS - aliás, como se toda festa tivesse o seguinte nome: “Festa Lollipop! Para gays, lésbicas e simpatizantes” - são escondidas? Oi, eu moro aqui no Rio de Janeiro e nunca tive problemas em encontrar a rua Farme de Amoedo, ou a The Week. Não satisfeito, ele resolve falar por todas as organizações de defesa dos direitos dos gays, lésbicas, simpatizantes etc.: essas organizações simplesmente não são mais apoiadas por jovens gays porque não defendem as causas deles. Querendo corroborar esse argumento ele diz que o público de até 18 anos na Parada Gay de São Paulo, majoritariamente, está ali para “se divertir e paquerar”. Desde quando a única forma de se defender causas é fazendo paradas, incluindo a gay, que há muito é criticada pelos próprios gays - quando eu disser gays, por favor, entendam como todos aqueles que não são héteros -? Ele usa um argumento de autoridade ao citar um sociólogo: “(…) Para eles, ficar reafirmando o rótulo gay não só perdeu a razão de ser como soa antiquado.” Por favor, indiquem-me a época em que era normal todos os gays ficarem falando que o eram, porque eu perdi esse bonde. Aliás, caro jornalista, quando algo perde sua “razão de ser”, ou seja, sua eficácia social, ela já se torna antiquada; em outras palavras, você foi redundante. Então, querendo mostrar-se muito interado no universo GLS, que, pelo que ele disse, nem existe mais, fala: “Ícone desse meninos e meninas, a cantora americana Lady Gaga os fascina justamente por ser “difícil de definir o que ela é”. Ele leu ontem aquela notícia de que a Lady Gaga seria hermafrodita ou um homem, né?

Nesse parágrafo ele pega aferições do Ibope de quase duas décadas de distância e as compara: antigamente, “quase 60% dos brasileiros assumiam, sem rodeios, rejeitar os gays. Hoje, o mesmo percentual declarar achar a homossexualidade “natural”, segundo um novo  levantamento com 1500 adolescentes (…)”. Primeiro, não entendi o uso das aspas. Depois, por que comparar aferições com amostras diferentes: a mais antiga é sobre toda a nação brasileira, a segunda, são com adolescentes apenas. O resto do parágrafo eu achei pouco relevante para ser comentado.

Por outro lado, a figura que ele colocou, para citar referência cultural-histórica, é, no mínimo, risível: uma tela de Caravaggio (1571-1610) e uma taça do século I com imagem homossexual “escancarada”, como ele bem disse. Qual a novidade disso? Na época de Sócrates (469-399 a.C.), ou, como preferirem alguns, Platão (428-348 a.C.), acreditava-se que a relação sexual entre o mestre e o discípulo era uma forma de transmissão da sabedoria daquele para este - e, antes que falem algo, a mulher não era considerada cidadã das cidades, muito menos portadora de sabedoria, tá certo? -. 

Enfim, ele segue com algumas referências de casos de progresso ante o preconceito no Brasil; mas nada que chame muito minha atenção. Acontecendo o mesmo no seguinte.

Por fim, ele tenta explicar o porquê dessa mudança, “a geração gay ser mais livre de amarras”. Ele traz o argumento de um antropólogo - americano, devo dizer -, muito conveniente de fato,  que o conceito de tribo perdeu o valor por causa da aceitação comum. Fico me perguntando se esse antropólogo fez pesquisa de campo - para quem pouco sobre antropologia, a pesquisa de campo foi uma revolução na antropologia, principalmente com Malinowski, por propor o conhecimento do “outro” tornado-se o “outro” - em vários lugares no mundo para afirmar com tanta certeza essa desvalorização da tribo e creditar tal mudança na aceitação. Posso ser suspeito para opiniar quanto a isso, mas, muito antes, acho que o início da aceitação social dos gays deu-se pela imposição legal e criminalização de vários tipos de preconceito, sem contar o fato de gays terem reagido muito mais aos casos de homofobia; isso é, a aceitação só aconteceu, de fato, pelo suporte legal e pela imposição do universo GLS, que é sim uma tribo. E a partir do momento que a noção de ser preconceituoso torna-se algo imoral, as sanções sociais tornam-se muito mais presentes.

A reportagem em geral é bem cansativa por querer passar um lado compreensível e revolucionário sobre o ex-tabu homosseualidade, por isso estou pulando muitas partes, inclusive as entrevistas dos participantes.

Fala, já no fim, do mundo do entretenimento e a recente (?) entrada da homossexualidade nele, citando Glee e The L World, além de nas novelas brasileiras, de acordo com ele, “os homossexuais já não são mais tratados de maneira tão caricatural”. Eu não vou comentar o uso do “” e do “tão”, na declaração dele, mas, por favor, reflitam. Tampouco vou comentar sobre Sr. Orgastic no Zorra Total e sua contribuição para a perpetuação de estereótipos. Não vou mesmo.

A reportagem não podia terminar com pior tom: enfatiza a ideia de que homossexualidade ou bissexualidade é uma escolha, uma preferência. Olha que fofa a mensagem final da reportagem, feita por um dos entrevistados: “O dia em que eu contei a verdade a todos foi o primeiro em que me senti realmente livre e feliz.” Não que eu esteja julgando alguém, longe disso, mas depender do conhecimento e aceitação dos outros para se sentir feliz é falta de auto-estima, viu? Acho que deve ser muito mais libertador, e, portanto, causar felicidade, assumir para si mesmo.

Aliás, o link para a reportagem para quem ainda tiver coragem. Oops, digo, curiosidade: http://veja.abril.com.br/120510/geracao-tolerancia-p-106.shtml


  1. ybren posted this
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